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Texto – PODE SER SUAVE?

Retirado do Jornal Dance 200 | Abril/Maio 2013

Primeira noite no Dançando a Bordo 2013. Após o jantar, o início do baile. Já na primeira salsa que ouço, sinto uma mão no ombro, acompanhada de um gentil pedido: “Você dança uma comigo? ”. Claro que sim, respondi. Ele me conduziu até a pista e pronto; início do caos. Giros triplos, quádruplos, quíntuplos, travadas mirabolantes, inversões diversas e mais giros, giros e giros. A música acabou. Ufa! Ele me conduziu de volta de onde me apanhou. Minha primeira dança e eu já estava exausta. Completamente tonta. Não me lembro do nome do rapaz, não sei nem como era seu rosto, nem que idade tinha, nem que música tocou enquanto dançávamos. Agora, só pensava em me recuperar daquela maratona. Uma garrafa de água. Uma passagem pela toalete e o retorno ao salão de baile. Menos de cinco minutos, e um segundo convite: vamos dançar? Respondi: claro, mas pode ser suave? (Confesso que ainda estava em choque). Veio a resposta: Suave??? Mas você é a Milena Malzoni…

É aqui mesmo que quero chegar.

Sim, sou a Milena Malzoni, empresária e profissional do meio da dança. Reconheço que nos últimos anos até ganhei um certo prestígio no mercado, com a inauguração da escola, o sucesso do bar latino Rey Castro, a organização e a participação em alguns eventos importantes. Mas, em que momento alguém me colocou no nível da dançarina mais profissional e performática das pistas? Nunca fui dançarina. Na verdade, até tive um sonho. Queria trabalhar com dança, e para mim o único caminho para tal dependia de grandes shows, apresentações performáticas, holofotes. Confesso que por um tempo tentei. Horas e horas dentro de sala treinando giros múltiplos, em busca de um lugar ao sol. Por sorte, me envolvi em outra carreira, porque a verdade é que nunca consegui ser boa dançarina. Por mais que eu me esforçasse, por mais que treinasse, me faltava talento e aquela estrela que só algumas damas têm, sabe? Mas e o sonho de trabalhar com dança? Deveria ser enterrado por falta de talento? Descobri como publicitária (minha verdadeira formação) que eu tinha outro talento. O da comunicação. Sim, sempre fui uma comunicóloga nata. Por sorte, cruzei pessoas interessantes no meio da dança e em especial uma amiga (bailarina fera) que me disse: “Desiste de ser dançarina. Você é ruim. Mas se comunica bem e tem perfil de liderança. Porque você não se especializa em pedagogia da dança. Você pode não ser uma grande dançarina, mas tenho certeza que pode ser a melhor das professoras”. Sábias palavras. Abandonei a sala de ensaio e fui em busca de aprimorar meus conhecimentos em pedagogia, programação neurolinguistica, psicologia comportamental, filosofia, linguagem do corpo e música. Deu certo. Hoje, falo com orgulho que sou uma excelente professora. Talvez porque atualmente entenda mais de gente e de comportamento humano do que de dança. E ainda tenho um punhado de alunos que dançam melhor do que eu. Aprenderam comigo, mas têm mais talento e aquela tal “estrela” que eu citei lá em cima.

Pronto! É isso! Sou professora e não dançarina. Portanto, não tenho competência e nem vontade de dar show em pistas e salões de baile. Quero, sim, dançar. Faz parte e gosto. Mas quero curtir, ouvir a música, me entrosar com meu parceiro, mesmo que seja por apenas 3 minutos e meio – o tempo médio de uma dança. Mas porque todos os cavalheiros que me tiram para dançar tentam um show? Sem contar as inúmeras vezes em que me senti uma “dama veículo”. Discutindo com meu amigo e também professor Fabio Rodrigues, chegamos à definição exata da “dama veículo”. Funciona mais ou menos assim: ele te tira pra dançar, porque te consideram boa. Ele não quer na verdade dançar com você. Ele só quer mostrar a dança dele com uma boa parceira para aquela outra, mais iniciante, em quem ele realmente está interessado. Então ele mal olha pra você e fica fazendo seus malabarismos procurando um outro olhar no canto oposto do salão.

Com tudo isso, fico pensando se seria muita exigência pedir aos cavalheiros que tirem uma dama para dançar leve e gostoso por alguns minutos? E aproveitar a aproximação para saber um pouco a mais sobre ela? Sem se importar com que nome ou prestígio ela tenha? Quer saber? Minha melhor dança no navio foi com um rapaz que não me conhecia. Ele me tirou, foi devagar, um passo de cada vez. Ao perceber que eu acompanhava, foi se aventurando em alguns movimentos mais elaborados, mas nada performáticos. Uma delícia! Deslizamos pelo salão e até cantarolamos a música que tocava. Perfeito! Desse, lembro de tudo. Do nome, do rosto, da condução, da voz, da gentileza e do cuidado. Fato que o final foi inusitado. Ao término da música, enquanto ele me conduzia de volta ao meu lugar, arrematou: “Nossa, gostei muito de dançar com você. Foi o melhor samba de gafieira que dancei desde que embarquei. Acho que vou te tirar todas as noites. Meu nome é Sérgio e o seu?” Respondi que meu nome era Milena. Ele abaixou a cabeça e de certa forma constrangido questionou: “Milena? Só não me diga que você é a Milena Malzoni?… Ai que vergonha, não acredito que te tirei pra dançar. Eu só te conhecia de nome, mas não sabia quem você era…” E eu concluí: “Sim, você me tirou pra dançar e quer saber? Também foi a melhor dança desde que embarquei! Pode me convidar todas as noites, aceitarei com prazer. Mas com uma condição… Pode ser assim, suave?”… e uma deliciosa risada encerrou a nossa dança.

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